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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Solar da Marquesa

Minha relação com essa casa começou na época em que eu estudava arquitetura. Ela havia acabado de ser restaurada, pela enésima vez. Nesse restauro da década de 1990, surgiram as “janelas arqueológicas” que ainda hoje nos revelam a memória de diversas técnicas construtivas e diversos períodos em que intervenções foram realizadas nessa casa quase tricentenária. 

O Solar da Marquesa de Santos, tão resistente quanto sua mais famosa proprietária, é o último remanescente urbano em taipa de pilão do núcleo urbano inicial da formação da nossa Pauliceia, cada dia mais desvairada.

Anos depois, num passeio pelo centro com uma garota em que eu estava “de olho”, acabamos nos beijando no Solar. Foi no andar de cima, primeira janela à direita, quase de quina entre a rua Roberto Simonsen e o Beco do Pinto. Saberia depois que ali era a “sala do veludo”, onde, em luxuosos sofás e poltronas forrados com esse tecido, Domitila passaria boa parte das tardes de seus últimos 69 anos de vida. Deveria eu o meu casamento à nobre dama paulista? 

Talvez seja mais um dos que desencalhou graças à intervenção da famosa paulista, que, segundo a lenda, protege os amantes e enamorados.

Domitila foi amante do nosso primeiro imperador durante sete longos anos. Antes disso, foi casada com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, de riquíssima família mineira dona de lavras de ouro. Mas, diferente da grande maioria das esposas de sua época, Titília não aguentou calada os mandos e desmandos do marido, sua violência, nem a sua paixão pelo jogo onde perdia o soldo que o Exército lhe pagava, obrigando mulher e filhos a viverem maltrapilhos. A família a aceitou de volta a São Paulo, para onde ela retornou com os filhos. 

Felício veio logo atrás, querendo refazer o casamento que terminou quase em tragédia, com Domitila entre a vida e a morte durante um mês devido às facadas que o alferes lhe desferira por se recusar a vender as terras que a mãe dele havia deixado de herança ao dois.

Em agosto de 1822, com a independência começando a clarear no horizonte, eis que surge o seu príncipe “quase” encantado. Sua relação com d. Pedro lhe renderia fama, fortuna, filhos do imperador e uma nova vida, em um corte não tão rica e faustosa como as da Europa, mas com certeza muito mais animada e vivaz do que a triste e velha São Paulo da garoa constante, do frio cortante e das línguas ferinas.

Em 1829, Domitila retornou a São Paulo, expulsa da corte de Pedro I pelo novo casamento do ex-amante com Amélia de Leuchtenberg. Aqui se faria aceita, na marra, pela sociedade que ainda a chamava de “a moça do imperador”. Trocou o imperador do Brasil, que teria pouco menos de dois anos de reinado pela frente, pelo “reizinho de São Paulo”, o riquíssimo sorocabano Rafael Tobias de Aguiar, eleito duas vezes ao cargo de presidente da Província de São Paulo, posto equivalente hoje ao de governador do Estado. Domitila era uma sobrevivente.

Teve vários dos filhos do governador nesse Solar, que adquiriu em 1834, próximo do Pátio do Colégio, de onde Rafael governava São Paulo. Enfrentou com o marido a Revolução Liberal de 1842, indo suplicar a d. Pedro II, filho de seu ex-amante, que a deixasse ser presa junto com Rafael na Fortaleza da Laje, no Rio de Janeiro, para que pudesse cuidar dele. 

Aqui, em seu Solar, Domitila capitaneava as melhores festas da cidade. Não tinha comemoração de 7 de setembro e 11 de agosto, criação dos cursos jurídicos no Brasil, que rivalizasse com os folguedos realizados em sua casa.

Foi aqui que ela amou e viveu seu último grande romance, teve filhos, agonizou e morreu.

Daqui o seu corpo foi levado para ser velado na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, de onde havia se tornado irmã leiga, e, de lá, seguiu em cortejo, concorrido, cheio de personalidades paulistas da época, para o Cemitério da Consolação, onde se encontra ainda hoje.

Paulo Rezzutti


Para saber mais:

- Rezzutti, Paulo: Domitila, a verdadeira história da Marquesa de Santos. São Paulo, Geração Editorial, 2013.

- Rezzutti, Paulo: Titília e o Demonão. Cartas inéditas de D. Pedro I à Marquesa de Santos. São Paulo, Geração Editorial, 2011.



Nossos agradecimentos ao escritor Paulo Rezzutti, que tão gentilmente nos presenteou com o magnífico texto - Estilo de Fotografia


Dica:

Solar da Marquesa ou Museu da Cidade de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136 – Sé

Fone: 3105-6118 - www.museudacidade.sp.gov.br

Abre de terça a domingo, das 9h às 17h, com entrada franca

- São Paulo Antiga, também promove passeios ao Solar da Marquesa - acompanhem




Solar da Marquesa
raro exemplar de residência urbana do século XVIII

Solar da Marquesa
Solar da Marquesa
Em 1802, foi dado ao Brigadeiro
José Joaquim Pinto de Morais Leme,
como pagamento de dívidas
Solar da Marquesa

Solar da Marquesa
a Marquesa de Santos, Domitila de Castro Canto e Melo,
foi a proprietária entre 1834 e 1867

Solar da Marquesa

Solar da Marquesa
Com sua morte, a propriedade passou para seu filho,
o Comendador Felício Pinto de Mendonça e Castro

Solar da Marquesa
em 1880, a residência é colocada em hasta pública
e arrematada pela Mitra Diocesana
Solar da Marquesa

Solar da Marquesa
detalhe da edificação - provável túnel

Solar da Marquesa
pedaço de pintura que deve ter decorado a casa à época da
Marquesa de Santos

Solar da Marquesa
Em 1909, o imóvel foi adquirido pela
The São Paulo Gaz Company 
Solar da Marquesa
Solar da Marquesa
Solar da Marquesa
parede original à mostra

Solar da Marquesa
prato que provavelmente pertenceu à Marquesa
Solar da Marquesa
Solar da Marquesa
outro prato que supostamente teria pertencido à marquesa



Solar da Marquesa


Solar da Marquesa

Solar da Marquesa


Solar da Marquesa
detalhe da liteira - cadeira portátil, aberta ou
fechada, suportadas por duas varas laterais

Solar da Marquesa

Solar da Marquesa

Solar da Marquesa

Solar da Marquesa
cama que pertenceu à Marquesa

Solar da Marquesa
detalhe da cama

Solar da Marquesa
cadeira utilizada para serem feitas
as necessidades
Solar da Marquesa
depois, os escravos recolhiam o recepiente
para limpá-lo
Solar da Marquesa

Solar da Marquesa


Solar da Marquesa


Solar da Marquesa


Solar da Marquesa

4 comentários:

  1. Nossa, que fotos lindas! Que belo texto...vcs estão ficando demais meninas, estou adorando isso. Sueli

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  2. Muuuuito legal!!!!
    10!!!

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  3. Sensacional!!!!!!
    Neta.

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  4. q demais, trabalho na Boa Vista, passo sempre por lá e nunca entrei! mas agora eu vou com certeza

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